privacidade online

Privacidade na Internet: estamos perdendo essa batalha?

Se você acessar o site da Amazon pensando em adquirir um livro online, encontrará em sua página de boas-vindas sugestões de outros livros que talvez sejam também do seu gosto, inclusive o mais novo lançamento dos seus autores preferidos, e isso graças ao seu histórico de compras anteriores. A maior parte dos clientes gosta das recomendações, da mesma forma que gosta também das sugestões do seu bibliotecário local.

Contudo, como você reagiria se, ao visitar um site de investimentos, topasse com mensagens sugerindo terapias para seu problema de coração diagnosticado recentemente? Sua reação, provavelmente, seria a mesma de Fran Maier, diretora executiva da TrustE, órgão que atua em defesa da privacidade online, que descreveu sua experiência como “arrepiante”, uma sensação de que alguém estaria espionando uma parte da sua vida que deveria permanecer em sigilo.

Maier é diretora executiva da TrustE, uma organização sem fins lucrativos que fixa diretrizes para a preservação da privacidade online e confere um selo de aprovação para as empresas que as seguem. Ela foi uma das oradoras presentes ao congresso Supernova, realizado em São Francisco, um evento anual de tecnologia organizado pelo professor de ética nos negócios da Wharton, Kevin Bach, em parceria com a própria Wharton.

Arrepios

O fator de “arrepio” é um risco inerente do chamado foco no comportamento. Essa prática baseia-se na atitude de profissionais de marketing que observam o comportamento do usuário na Internet elaborando em seguida seu perfil com base nos interesses e no comportamento do internauta — os sites que visitou, as pesquisas feitas, os artigos lidos, e até mesmo os e-mails escritos e recebidos. Com base nesses dados, o usuário recebe anúncios dirigidos especificamente a ele, pouco importa por que sites da Internet circule.

Para os defensores dos consumidores, a coleta de dados online, e o monitoramento da navegação do usuário, foram longe demais. Os executivos de marketing reagem dizendo que o consumidor se beneficia da publicidade afinada com seus interesses e afirmam que a renúncia à parte de seus dados pessoais é uma troca razoável pelo acesso gratuito ao conteúdo da Internet, que é em boa medida sustentado pela propaganda.

Explorando dados

Na base de toda essa preocupação com a privacidade individual está a velocidade com que a Internet entrou no dia-a-dia das pessoas ao longo dos últimos dez ou vinte anos. Quinze anos atrás, a Web era uma novidade usada por relativamente pouca gente. Hoje, ela é utilizada por milhões de pessoas em busca de informações, para a aquisição de bens e serviços e troca de idéias em fóruns de discussões.

O rápido desenvolvimento da tecnologia deu às empresas condições fantásticas e cada vez maiores de coletar, armazenar e analisar um número colossal de dados dos consumidores.

“Tudo o que fazemos online cria um histórico de transações, e todos os dados têm algum valor”, disse Bruce Schneier, especialista em segurança muito conhecido e diretor de tecnologia da BT Counterpane, provedora de soluções de segurança corporativa. “À medida que o armazenamento de dados e os custos de processamento vão se tornando praticamente gratuitos, os dados que normalmente apagaríamos passam a ser guardados.”

O armazenamento e a prospecção de dados — isto é, o processo da descoberta de correlações, ou padrões, entre dezenas de campos em vastos bancos de dados relacionais — permite, cada vez mais, a execução de expedientes minuciosos de rastreamento e de elaboração de perfis, seja pelo governo, seja pelas empresas, o que tem sérias implicações para a privacidade. Alguns analistas dizem que os usuários de Internet, de modo geral, não se importam com essa coleta de informações e preferem anúncios que reflitam seus interesses. Eles dizem também que a preocupação com a questão da privacidade é um problema de geração, uma vez que os usuários mais jovens não se incomodam tanto com a coleta de informações a seu respeito como os usuários mais velhos.

Contudo, Schneier, Maier e outros dizem que a maior parte das pessoas, não importa a faixa etária, não faz idéia do volume de informação que está sendo coletado e analisado, tampouco essas pessoas pararam para pensar nas possíveis implicações negativas de tais atividades como, por exemplo, a maior possibilidade de serem perseguidas na Web e de terem sua identidade roubada.

De acordo com recente pesquisa da TrustE, a maior parte dos consumidores online está de certa forma consciente de que as informações online que ele procura podem ser utilizadas para fins publicitários. Contudo, não compreendem muito bem o que é o foco no comportamento e não gostam da idéia de que seu histórico de navegação possa ser utilizado para o envio de publicidade específica.

Paradoxalmente, porém, cerca de dois terços prefeririam topar com publicidade de anunciantes que conhecem e em quem confiam, o que exigiria o monitoramento online dessas pessoas. De acordo com uma pesquisa feita pela agência de pesquisas globais TNS com base em um levantamento colhido junto a uma amostra de 1.015 americanos adultos, a grande maioria (91%) disse que, se tivesse a oportunidade, utilizaria ferramentas online para controlar o monitoramento online de sua navegação. Maier disse que os dados apontam para “uma indicação bastante concreta de que o consumidor quer que encontremos um meio de lhe proporcionar acesso a anúncios do seu interesse. Para isso, o foco no comportamento tem se revelado um dos métodos mais promissores. No entanto, é preciso que seja transparente nos mínimos detalhes, permita escolhas e gere valor real”.

O equilíbrio correto

Maier e os demais participantes do Supernova reconheceram que tanto o consumidor quanto o profissional de marketing precisam ainda chegar ao equilíbrio correto entre a coleta de dados e a privacidade do usuário, bem como descobrir formas mais adequadas de atender às necessidades de anunciantes e usuários.

Tome-se, por exemplo, o caso do Facebook, o conhecido site de relacionamento social. No ano passado, o Facebook lançou um sistema chamado Beacon, que monitorava as compras dos membros em outros sites e compartilhava a informação com todos os usuários do seu círculo social. Passado um mês, os usuários, sentindo-se invadidos, obrigaram o site a reconsiderar a iniciativa posta em prática sem aviso prévio. A empresa se desculpou e lançou em seguida novas opções de privacidade que exigiam o consentimento do usuário para ativar o Beacon.

Assim como em muitas outras áreas, a possibilidade de monitorar o que se passa na Web, graças à tecnologia, supera em muito a capacidade da sociedade de administrá-la. As políticas públicas de privacidade atuais remontam a 1973, quando o Departamento de Saúde, Educação e Bem-Estar dos EUA fixou diretrizes básicas para a utilização apropriada de informações pessoais computadorizadas como, por exemplo, a comunicação antecipada aos consumidores sobre a coleta de dados, a possibilidade de não optar por tal coleta, acesso aos dados coletados e a garantia de que não serão utilizados sem autorização prévia do usuário. “Será que isso faz sentido em 2008?”, indagou Maier, observando que tais medidas são insuficientes para o ambiente atual de Internet, em que se coleta tudo em toda parte.

Na verdade, disse Maier, “nosso conceito de privacidade baseia-se na idéia de quem você é. Contudo, temos de pensar agora também no que você faz. O debate em torno da privacidade e estrutura básica da questão mudaram para sempre”.

Isto significa que precisamos de uma lei nacional de privacidade? As realidades políticas e sociais levam muitos analistas a acreditar que uma lei como essa ainda deve demorar — e que os EUA, provavelmente, não seguirão a orientação dos países europeus no que diz respeito à privacidade online. Na Europa, a privacidade é entendida como direito fundamental, uma obrigação do Estado para com seus cidadãos. Nos EUA, a privacidade é um direito individual do consumidor que pode ser trocada por um benefício como, por exemplo, a utilização gratuita da Internet.

Schneier não acredita que os EUA venham a adotar a política de privacidade européia, mas acredita que os americanos, no futuro, terão uma política própria. “As leis caminham devagar. Um dia ainda teremos uma lei nacional de privacidade de dados mais madura, porque sem isso é impossível administrar uma economia nacional de informações. Mas pode ser que tenhamos de esperar 20 anos para que tal coisa aconteça.”

Transparência x dissimulação

Enquanto isso, não há como negar o apetite insaciável das empresas por mais e mais informações sobre os usuários da Internet, isto porque as possibilidades financeiras são muito grandes nesse segmento. Conforme disse Jonathan Swartz, CEO da Sun Microsystems: “Existe o desejo de colher toda informação possível do usuário, cada item, por menor que seja. Contudo, é preciso que o usuário saiba que tipo de informação você está colhendo. É preciso ser transparente — a menor dissimulação pode acabar em desastre.”

De acordo com Joe Kraus, diretor de gestão do produto do Google, “a boa privacidade começa pela utilização de uma tecnologia que permita a filtragem de dados, isto é, uma tecnologia que possibilite a um terceiro ter acesso somente àquilo que eu queira que ele acesse. Temos de dar aos usuários um controle maior sobre o tipo específico de informação compartilhada”. Trata-se de uma medida de enorme importância, acrescentou Kraus, “já que a Internet trabalha em conjunto com vários aparelhos móveis”.

Quando lhe perguntaram o que mais lhe preocupava, Schneier fez referência à consolidação e à correlação cruzada de dados por empresas como a Choicepoint, e também por agências do governo. “Há dados cuja coleta pelo governo é ilegal, então ele os compra das empresas e vice-versa. Todas essas pontas se juntam depois e podem ser usadas de formas inesperadas.” (A Choicepoint tem forte presença na indústria de corretagem de dados comerciais; em 2005, a empresa informou o roubo de dados pessoais de 145.000 consumidores do seu banco de dados).

Maier se disse igualmente preocupada “com a forma como somos monitorados pela Internet, isto é, com base em informações específicas. Quanto dessa informação está ao alcance do governo?” Ela vê, porém, sinais positivos, inclusive tentativas de desenvolver melhores práticas entre algumas empresas de Internet e uma geração mais jovem e mais habituada a usar a Web em benefício próprio.

Como qualquer tecnologia, a coleta de dados online, o processamento e o monitoramento têm fins positivos e negativos, disse Gerard Lewis, vice-presidente, consultor jurídico e encarregado da área de privacidade da Comcast. “O desafio consiste em conseguir o equilíbrio justo mediante a fiscalização certa. Para isso, é preciso que a comunidade toda, todos os envolvidos nos setores públicos e privados — consumidores, usuários, empresas, especialistas em políticas públicas, governo — participem da discussão.”

_universia_

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Sobre tomás
Me chamo Tomás Oliveira, 31 anos, paulistano, nascido no Itaim, profissional de marketing e vendas. Tenho um filho de 07 anos, que começa a me desafiar, tentando provar que c* não é palavrão, Torcedor (não mais tão fanático quanto antes) do São Paulo, amante de leitura, cinema e jogar bola, adoro blues, jazz e rock´n´roll e outras coisas mais. Estou aqui para aprender e passar um pouco do que eu aprendi. É isso, acredito que já dá pra ter uma idéia.

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